“Imaginar um ato sexual que não esteja conforme a lei ou a natureza, não é isso que inquieta as pessoas. Mas que indivíduos comecem a se amar, e aí está o problema. A instituição é sacudida, intensidades afetivas a atravessam e, ao mesmo tempo, a dominam e perturbam. Olhe o exército: ali o amor entre homens é, incessantemente, convocado e honrado. Os códigos institucionais não podem validar estas relações das intensidades múltiplas, das cores variáveis, dos movimentos imperceptíveis, das formas que se modificam. Estas relações instauram um curto-circuito e introduzem o amor onde deveria haver a lei, a regra ou o hábito.” – Michel Foucault, Da amizade como modo de vida
A amizade às vezes se volta contra o corpo; ela parece basear-se numa intimidade exacerbada, mas se constitui muitas vezes do contrário: uma intimidade exacerbada que nega, justamente, o corpo — que nega relações físicas, o toque, o abraço, que recusa o corpo e aceita, em seu lugar, a inteligibilidade das palavras: inteligíveis porque coletivas, coletivas porque falam a língua dessa micro-multidão que se estaciona e fortifica com o tempo, mas que se mina interiormente graças à fria rispidez de suas partes cujos modos nunca constituem uma unidade orgânica, porque nunca há a dissolução da apatia das partes para que haja a produção uma comunidade onde os corpos se atravessem física e emocionalmente, onde haja a confusão das partes.
Mas o que falta ao corpo? Algo funcional, algo que o torne uno? Ou relações em que há a confusão dos corpos e dos sentimentos, menos castrada física e emocionalmente, menos histérica — uma amizade que instaura a tão desejada vida não fascista?
Ser atravessado por outros corpos aparenta ser preferível — talvez, antes disso, necessário — uma vez que nos salva da fria apatia em que vivemos. A economia nos castra, a política nos castra, a vida mesma nos castra e nos amontoa uns sobre os outros, e uma forma que sustente a reprodução biopolítica dessas características é nunca permitir que destruamos as referências do ‘eu’ e do ‘você’ para a criação de uma vivência comunitária, instaurando uma comunicação, talvez centrada no corpo. É necessário superar essa negação amigável do corpo.