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Homens gays e o “passe livre” patriarcal

Um sintoma de uma sociedade patriarcal é o sentimento de posse, do “direito” ao corpo feminino. A hiper-sexualização do corpo da mulher, sua seguida desumanização e o “corte” sexual do corpo feminino produzem “símbolos” sexuais, áreas que pretensamente estão sempre abertas e dispostas a serem dominadas pelo macho. Assim, o peito e a bunda se tornam símbolos da mulher, atalhos. A fixação na genitália, tanto de pessoas cisgêneras quanto de trans* (me omito sobre a questão específica sobre a intersexualidade por falta de conhecimento), é também um sintoma desse corte patriarcal e demonstra inclusive o policiamento cisgênero dos corpos. O corpo feminino está sempre disposto; em comerciais de cerveja, revistas pornográficas, nas mesas e portas de escolas – as curvas, os peitos, a bunda, enfim, estão sempre presentes, referenciando algo que não precisa ser referenciado, que pode estar ausente, fora do espaço público: a mulher.

Mas uma faceta dessa forma prática direta de desumanização é poucas vezes criticada: quando homens gays se sentem no direito de violar o corpo feminino, tanto física quanto simbolicamente. Quando se sentem no direito de tocar, criticar, tecer comentários degradantes sob uma pretensa legitimidade dada pelo fato de serem.. gays. Fato que não diz nada, uma vez que a prática é a mesma existente entre homens heterossexuais. É irônico que uma fixação tipicamente heterossexual nos seios femininos exista em homens gays, sob a forma do “toque amigo” – se não há desejo sexual, não deveria haver essa reprodução do corte heterossexual do corpo da mulher – mas ela existe, por algum motivo, e é degradante.
Degradante porque serve como uma forma de violar e controlar o corpo de mulheres, que é constantemente bombardeado por imagens negativas, que é policiado por ser de um jeito ou de outro, que é forçado a se “normalizar” dentro de um padrão – um corpo que é ensinado também a normalizar o de outras mulheres; e tudo isso vindo de uma pessoa que não possui desejo sexual. Resta, então, que exista algo que dê o direito ao corpo da mulher a homens gays, que legitime essa violação.
Não vou me atrever a buscar uma resposta sobre o motivo dessas violações; o que fica claro é que a violação praticada por homens gays é a mesma que a praticada por homens heterossexuais, exceto que é legitimada, é “amiga” – uma violação próxima, amigável. Algo que, ao meu ver, é extremamente perigoso para ser reproduzido acriticamente; o policiamento dos corpos advém, sim, de todos os lados – homens e mulheres, de qualquer orientação sexual, são agentes dessa estrutura que degrada o corpo da mulher; mas os homens gays estão “deslocados” nessa lógica – ao mesmo tempo em que são “feminilizados”, que são tornados próximos de mulheres (assim como o fantoche-amigo tão conhecido das séries de TV e novelas), servem de agentes dessa ordem que controla o corpo da mulher mais de perto – sem o interesse sexual intenso dos homens heterossexuais e sem o revanchismo estimulado entre mulheres.
Diversos são os artifícios desse controle, dessa forma de violação: o acesso quase irrestrito ao corpo; comentários sobre cheiros, sobre alterações de humor, sobre comportamento sexual; a autoridade masculina legítima do “”””universo feminino”””” (em moda, por exemplo – que, apesar de não ser algo homossexual, é comumente identificado como tal);  enfim, formas de legitimar a dominação masculina de um jeito mais eficaz: através da manipulação dos afetos, da proximidade. Afinal, por que um homem gay tocaria o corpo de uma mulher com “malícia”, já que ele não possui desejo sexual por ela? Que interesse há nisso? É realmente pura amizade ou há, por trás disso, um interesse inconsciente de perpetuar a dominação masculina?