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Como identidades políticas podem se tornar instrumentos de dominação

(o texto tem certa “tendência” a generalizar políticas identitárias dentro de movimentos sociais, mas me restrinjo a expor exemplos do “movimento lgbt”, de liberação homo/bissexual e transgênero — imagino que, fazendo todos esses movimentos parte de um mesmo contexto, as reflexões possam ser aplicadas sem muito alarde, porém não advogo — as condições materiais de cada grupo devem ser consideradas na produção de uma “práxis libertadora”.)
Uma atitude muito comum em movimentos de libertação é a utilização de identidades políticas, uma forma de identificação individual total com a opressão sofrida por algum grupo que busca, além da visibilidade, a afirmação da possibilidade de uma vivência alternativa dentro de um sistema excludente.
Essa identificação, apesar de útil por diversos motivos (dá visibilidade, “encarna” a ideia do grupo), se mostra problemática quando são consideradas as relações de poder que a produziram, historicamente: a identidade homossexual, por exemplo, com seu histórico médico e perverso, chegando à atual era do pink money e de uma sexualidade extremamente genitalizada, traz consigo diversos “problemas” pra subjetividade individual e coletiva, como a reprodução de relações sociais desiguais¹ e a limitação das potencialidades, dado que políticas identitárias legitimam os discursos historicamente produzidos que servem de limitação aos indivíduos surgidos em meio a esses relações de poder (através de dispositivos, como a “sexualidade”, a “raça”, o “gênero”) ao mesmo tempo em que os fortalece, produzindo indivíduos dependentes de uma subjetividade “inferiorizada” criada em um espaço excludente, presos emocional e socialmente à “aceitação” de uma sociedade socialmente conservadora e economicamente liberal – o que pode, em algum caso, ser eficaz para um grupo, mas não individualmente.
Como, então, aliar a eficácia política a uma prática individualmente saudável?
Enquanto podem ser vistos e “balanceados” os prós e contras das políticas identitárias, podemos encontrar uma saída – uma forma de lutar contra as opressões, sem invisibilizá-las ou torná-las “anônimas”, e criar formas de resistência às identidades, que se mostram agora claramente como formas de dominação, ferramenta da ordem social que, enquanto torna possível alguma “libertação”, promove a reprodução compulsória de relações sociais/de produção desiguais²: a identificação das condições materiais do grupo oprimido e a luta, não pela liberação dos “sujeitos da opressão”, mas pelo que torna o grupo oprimido efetivamente oprimido; no caso dos homossexuais, é a identidade homossexual que os oprime, em primeiro lugar? O sujeito homossexual é anterior ao controle da sexualidade, a uma política sexual claramente heterossexista? Por que, então, lutar pela liberação do homossexual – que claramente exclui outras sexualidades – e não pela liberdade sexual, ultrapassando a dicotomia natureza-escolha, legitimando toda forma de sexualidade sadia entre indivíduos cientes da prática?³
Devemos, então, ser “indiferentes” à diferença entre os indivíduos, levando em conta que essa indiferença pode ser uma forma de exclusão e nos garantindo de que isso de fato não aconteça – levando em conta o empoderamento (ou a desnaturalização do “oposto saudável”) das características inferiorizadas; tornando central na luta política não a identidade, mas o que produz a opressão, o que produz os indivíduos e os oprime; assim, alcançaremos políticas menos excludentes com outros grupos também oprimidos e uma forma saudável de luta, porque não nos limita e nos faz cair na ilusão liberal da “liberdade pós-moderna”, sem sujeito e sem opressão. Uma política anti-identitária, na minha visão, pode nos libertar tanto das amarras históricas que nos oprimem quanto das que nos “libertam”  pra que outrxs possam ser oprimidxs.
¹ – A “genitalização” da homossexualidade e a transformação dos homossexuais em um nicho de mercado reproduz uma lógica sexista e mercadológica, além da exclusão clássica das mulheres lésbicas, pessoas bissexuais e transgêneras, tanto da sociedade como um todo quanto no movimento homossexuais.
² – Como a inclusão de homossexuais através de seu poder de compra, reproduzindo as contradições capitalistas e produzindo uma “guetificação” de homossexuais que estão “fora” desse mercado elitista
³ – Aqui quero deixar claro que, longe de legitimar a “liberdade sexual” liberal, quero evidenciar que a sexualidade também é produto histórico e que deve sempre ser criticada – “o poder” produz coerção e controle, mas também prazer.