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Por uma redefinição do veganismo

(05/06/2013) Edit: Tem muita coisa que eu não concordo mais nesse texto mas tô com preguição de revisar. Mas o ponto central é apontar um problema de classe no veganismo, e isso eu ainda concordo. Meus exemplos às vezes foram infelizes e não suficientes pro ponto que eu queria fazer, mas a reflexão é basicamente a mesma.
Vou tentar esboçar aqui uma breve explicação sobre o por que acho que o veganismo deveria ser redefinido, enquanto prática política. 

É bastante frequente uma definição que trata o veganismo como a abolição de produtos de origem animal, assim como o boicote a empresas que 1) realizam testes em animais 2) utiliza animais de forma “recreativa” 3) exploram animais de alguma maneira, física ou simbolicamente. Proponho que abandonemos essa definição, se não utópica, bastante elitista, e adotemos uma menos “pomposa”, mais adequada ao contexto do capitalismo mundial integrado e às linhas de fuga existentes em uma sociedade estruturalmente classista e especista, que é a redução da exploração animal, na medida do possível, respeitando as diferentes possibilidades e necessidades individuais e coletivas, tendo como fim sua abolição através da busca de alternativas viáveis e métodos mais eficazes para substituir a presença de animais em qualquer parte da cadeia de produção.

É sintomático que, numa sociedade erigida sobre uma suposta superioridade humana, algumas atividades possuam reflexos da exploração animal. Em nosso caso, a alimentação e a ciência são espaços em que a exploração animal possui função central. A alimentação, enquanto atividade fundamental à vida humana, deve ser pensada também em termos econômicos e éticos, considerando a viabilidade nutricional de várias dietas vegetarianas. O consumo de produtos de origem animal, na alimentação, pode ser evitado, dada a possibilidade de se criar dietas vegetarianas perfeitamente adequadas nutricionalmente com gastos pequenos; devemos, entretanto, estar alertas a uma questão fundamental, muitas vezes ignorada, mas que ecoa frequentemente no discurso vegetariano: o vegetarianismo não é uma prática ascética; não devemos esperar que pessoas sacrifiquem “excessos” graças a discursos moralizantes classistas. Não é uma opção que todas as pessoas com rendas relativamente baixas nos nossos padrões deixem simplesmente de comer chocolates lactos, considerando a quase impossibilidade de consumir chocolates veganos, que com muita frequência têm preços exorbitantes, quando disponíveis. O uso de discurso moralizante que demoniza as pessoas que consomem esses produtos é extremamente classista e deve ser evitado. Devemos tratar o veganismo também com uma visão de classes. Seria útil avançarmos com o discurso vegetariano na medida em que opções se tornem viáveis, porque o vegetarianismo também deve ser pensado geograficamente — os grandes centros urbanos possuem opções vegetarianas, mas nem sempre acessíveis a todas as pessoas, enquanto cidades do interior costumam ser bastante limitadas nesse sentido, se limitando a oferecer produtos industrializado de grandes marcas e empresas locais. Não existe um “sujeito vegetariano” universal, o “veganismo político” sempre deve existir em perspectiva — de classe e necessidades nutricionais, por exemplo.

Pegando o gancho da menção às necessidades nutricionais, vamos ao outro espaço em que a exploração animal possui função central: a ciência. Não vou tratar exatamente da vivissecção, mas sim da exploração na indústria farmacêutica.

A exploração animal é, de certa forma, legitimada em nossa sociedade. Isso significa, como já anteriormente mencionado, que várias atividades irão refletir essa faceta humana. Não significa, de forma alguma, que todas essas facetas podem ser abolidas pela mera abstenção de consumo, como já expus — algumas práticas centrais à nossa sociedade dependem da exploração animal e, na minha visão, não podem se submeter à lógica da abolição imediata, como por exemplo a indústria de remédios, que, na atual conjuntura, depende diretamente da exploração animal no processo de produção. Tanto na retirada de matéria prima quanto durante os testes, o especismo se faz presente — mas devemos nos questionar se a lógica da abolição imediata, como presente na questão da alimentação (que é, de certa forma, classista), pode ser aplicada aqui, dada a utilidade prática dos remédios e a função central que ela possui em nossa sociedade.

O argumento que defende a abstenção de remédios, quando não vem de pessoas que advogam o uso de terapias alternativas, cuja eficácia é bastante questionável, possui uma fundamentação problemática, que é a da possibilidade de viver sem eles. Creio que seja desnecessário apontar a posição de privilégio de uma pessoa que defende essa visão — sabemos como algumas pessoas podem depender do uso de remédios para funcionar socialmente, para se sentir bem. Não penso que seja útil argumentar para esse lado. Quero, de toda forma, mostrar que os remédios não podem ser tratados à mesma forma dos outros produtos da exploração animal. Eles são importantíssimos e estruturalmente ligados à exploração animal, considerando a necessidade dos testes e o fato de eles terem sido elaborados em uma sociedade especista, mas sua função social não pode ser negligenciada. Não podemos tratar todos os frutos da exploração animal como inerentemente ruins; devemos considerar que toda a sociedade foi produzida em torno disso, e que tanto coisas fúteis (como a existência de circos e zoológicos) quanto profundamente necessárias (remédios) compartilham essa base, inegavelmente ruim, de exploração animal. A função social, a disponibilidade e o acesso devem ser levados em consideração nas críticas veganas aos hábitos de consumo.

Expus, então, como queria, minha visão sobre os dois assuntos relacionados ao “veganismo político” (e não apenas ao “veganismo hábito de consumo”, que não articula a exploração animal com problemas de gênero e classe, por exemplo) que muito me incomodam. Claro que não vou ter a arrogância de dizer que isso encerra a discussão, e muito menos quero com essa crítica dizer que esses são os únicos problemas que vejo no veganismo – uma visão “econômica” do uso de produtos com traços também me  interessa e pretendo escrever sobre isso, mas adianto que considero classista e utópica a noção de que o consumo desses produtos seja não-vegano. Notar também que não foi minha intenção generalizar o veganismo ao discurso que critiquei e não estou de forma nenhuma justificando ou legitimando a exploração. A considero errada e idealmente ela não existiria. Estou apenas propondo uma forma alternativa de pensar a prática e a crítica, tentando ser mais justo e fazendo do veganismo uma prática não centrada em jovens de classe média. Estou em todo caso aberto a discussões em uma perspectiva vegana.