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Não existem negros nem brancos, somos todos homens

I.
Recentemente tive o desprazer de ter a participação em um protesto pró-direitos humanos cooptada por pequeno-burgueses sexistas e racistas, cuja atividade política se resume à apresentação de uma política “apolítica”, em suas próprias palavras, como revolucionária — ainda que ela reproduza as condições materiais que instauram o problema mesmo que dizem criticar.
Táticas presentes no momento incluíram o uso da massa de manifestantes contra a presidência de Marcos Feliciano na comissão de direitos humanos como mero adorno, números desprovidos de voz e visibilidade. A posse monopolizada de um megafone, durante o ato final do protesto, por pessoas sexistas e racistas, com retórica visivelmente anti-democrática, homogeneizante e acrítica, também se fez presente. Além, é claro, de uma manobra bastante típica: retirar grande parte da massa de manifestantes do local quando, finalmente, uma mulher negra teve acesso à voz afirmando que, sim, existem negros, e que sim, eles estavam presentes no ato.
Um lugar-comum no discurso monopolizado dos manifestantes anti-Renan foi a inexistência de brancos e negros, pois somos todos homens.
II.
Um problema estrutural como a corrupção sendo apresentado como pauta de um protesto apenas expõe a fragilidade e a incapacidade de reflexão crítica e radical de sua organização e militância. O cerne da questão é como uma representatividade anti-democrática pode vir a ser eleita por meios democráticos, ou se a democracia existente representa realmente a ideia que tanto amamos.
III.
Uma política que se propõe, prontamente, a apagar a diferença, anulando esforços de grupos que militam pelo reconhecimento civil de suas diferenças e representatividade, expõe e reforça, mais uma vez, a fragilidade e incapacidade de reflexão crítica sobre problemas concretos.
IV.
Uma militância que se enverniza de progressista, coopta lutas concretas, apaga as diferenças, cala e invisibiliza dissensos e canta o hino nacional em meio a um protesto pode apenas ter interesses obscuros que a sustenta. O simbolismo e valor do hino nacional somado às táticas presentes na manifestação permitem ver, por detrás de um véu progressista, um nacionalismo exacerbado, anti-democrático e tático.
V.
Esse nacionalismo anti-democrático que busca homogeneidade no discurso militante, nem que para isso precisem calar e apagar, é como se manifestou um grupo de manifestantes presente em uma (irônica) “junção” não-anunciada de um protesto Fora Renan e um ato de repúdio contra a presidência de um pastor reconhecidamente racista e homofóbico numa comissão de Direitos Humano, no último sábado, dia 09, em Belo Horizonte.

Modo de vida

“Imaginar um ato sexual que não esteja conforme a lei ou a natureza, não é isso que inquieta as pessoas. Mas que indivíduos comecem a se amar, e aí está o problema. A instituição é sacudida, intensidades afetivas a atravessam e, ao mesmo tempo, a dominam e perturbam. Olhe o exército: ali o amor entre homens é, incessantemente, convocado e honrado. Os códigos institucionais não podem validar estas relações das intensidades múltiplas, das cores variáveis, dos movimentos imperceptíveis, das formas que se modificam. Estas relações instauram um curto-circuito e introduzem o amor onde deveria haver a lei, a regra ou o hábito.” – Michel Foucault, Da amizade como modo de vida

A amizade às vezes se volta contra o corpo; ela parece basear-se numa intimidade exacerbada, mas se constitui muitas vezes do contrário: uma intimidade exacerbada que nega, justamente, o corpo — que nega relações físicas, o toque, o abraço, que recusa o corpo e aceita, em seu lugar, a inteligibilidade das palavras: inteligíveis porque coletivas, coletivas porque falam a língua dessa micro-multidão que se estaciona e fortifica com o tempo, mas que se mina interiormente graças à fria rispidez de suas partes cujos modos nunca constituem uma unidade orgânica, porque nunca há a dissolução da apatia das partes para que haja a produção uma comunidade onde os corpos se atravessem física e emocionalmente, onde haja a confusão das partes.

Mas o que falta ao corpo? Algo funcional, algo que o torne uno? Ou relações em que há a confusão dos corpos e dos sentimentos, menos castrada física e emocionalmente, menos histérica — uma amizade que instaura a tão desejada vida não fascista?

Ser atravessado por outros corpos aparenta ser preferível —  talvez, antes disso, necessário — uma vez que nos salva da fria apatia em que vivemos. A economia nos castra, a política nos castra, a vida mesma nos castra e nos amontoa uns sobre os outros, e uma forma que sustente a reprodução biopolítica dessas características é  nunca permitir que destruamos as referências do ‘eu’ e do ‘você’ para a criação de uma vivência comunitária, instaurando uma comunicação, talvez centrada no corpo. É necessário superar essa negação amigável do corpo.