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Privilégio heterossexual em discursos ativistas

Da minha experiência, vejo que existe um discurso heterossexual dominante no feminismo. Não heterossexual porque exclui mulheres lésbicas – não que isso não aconteça e que não exista esse tipo de crítica dentro do movimento – mas heterossexual porque, quando há a reflexão sobre a masculinidade, há a naturalização da heterossexualidade e a desconsideração de fatos que poderiam levar a uma crítica mais radical da masculinidade. Creio que isso derive diretamente da centralidade da mulher no feminismo e pela imagem de homens gays enquanto simplesmente homens. Não que não sejamos homens, mas não somos homens assim como homens heterossexuais. Há uma institucionalidade da heterossexualidade, inclusive legal, que nos barra o acesso à estrutura do poder que é tida como masculina. Mas não acho que essa centralidade feminina deva mudar.
Veja, não pretendo com isso questionar o feminismo, nem buscar protagonismo ou participação no movimento. Eu, enquanto homem, homossexual, tendo características físicas e mentais específicas que me barraram o acesso a grande parte do que a “socialização masculina” me proporcionou e, consequentemente, da interiorização de vários dos privilégios “masculinos”, não busco espaço no feminismo. Não quero a etiqueta do feminismo porque não acredito em movimentos unitários e interseccionais, não acredito na universalidade desse movimento específico e não acho que ele deva necessariamente englobar as reflexões de vários setores da sociedade. Compreendo quais são seus sujeitos históricos e as necessidades específicas desses sujeitos dentro de uma organização política e, pra finalizar, sei que não sou sujeito dele e que não há necessidade da minha presença nesses espaços.
Mas encerrando essa parte dos motivos pelos quais eu não anseio – mas não recuso – que minhas reflexões sejam incorporadas no feminismo, mesmo que eu as ache importantes, vou esboçar, de fato, algumas coisas que eu considero importantes, coisas que eu vejo sendo ignoradas e muitas vezes não levadas em conta quando mencionadas.
  1. Socialização infantil
    Creio que essa ideia da socialização infantil, que tem surgido graças à inclusão do assunto da transsexualidade no feminismo brasileiro, quando se posiciona como se a socialização infantil fosse a verdade do privilégio masculino de mulheres não-cis, possui um subtexto profundamente heterossexual que pode passar despercebido por mulheres, mesmo lésbicas. Primeiro: apenas uma perspectiva heterossexual e cisgênera, ou seja, uma perspectiva que se enquadra nas normas estruturais da máquina de gênero-sexo-desejo, consegue ver alguma linearidade efetiva entre o que o sujeito é e como ele foi socializado. Já mencionei como, na minha experiência, muitos dos privilégios masculinos não são dados a homens gays. Não porque homens gays não são homens ou não são vistos como homens, mas porque esses privilégios são institucionais (e nas instituições estão inscritas normas invisíveis de quem pode ou não acessá-las), e as instituições falam de e para os sujeitos de sua norma. Homens gays não são alvos de vários dos discursos privilegiados que há entre os homens. Não há nem a possibilidade de participação nos “espaços masculinos”, algo que vou tratar em outro tópico. Porque há um labirinto entre a forma que te tratam e como você lida com esses estímulos. Há algo entre o discurso que te abre o espaço público e te fornece os corpos das mulheres e o fato da sua auto-identificação ser homossexual. Esse dado não parece ser direcionado ao homem gay, porque nesse tipo de espaço e ideia há a inscrição da heterossexualidade. Por isso vejo um labirinto entre o seu tratamento e como você interioriza as noções e os privilégios: por mais que haja interiorização e vários casos (e eu não posso dizer de forma alguma que não há homens gays misóginos, algo que já tratei no blog), ela não pode ser tomada por certa por causa de uma análise simples da homossexualidade masculina na sociedade: homens gays não possuem o espaço público. Suas vozes são, na melhor das hipóteses, caricaturas e adornos direcionados a mulheres heterossexuais por causa do mito do ‘amigo gay’. Essa não-linearidade entre a socialização e os privilégios e a visão que o sujeito tem de si mesmo torna claro como é perigoso esse argumento da socialização infantil, porque ele não leva em conta algo que muitas pessoas (eu incluso) se recusam a levar em conta: o papel da identidade na formação subjetiva dos indivíduos. As normas produzem corpos mas os corpos também fogem à norma, e a quantidade relativamente grande de exceções faz com que essa objeção à ideia da socialização infantil seja relevante, ainda mais quando aplicada a questões trans. Pensar que homens gays possuem o espaço público por serem homens e ver nisso um privilégio é como considerar privilégio poder dançar num corpo que não é seu.
  2. “Homens não precisam de espaço no feminismo, eles devem tornar seus espaços feministas”
    Outra ideia com subtexto heterossexual. Pelo que eu falei acima, existe uma norma implícita nas instituições. O espaço público também é institucional, não é um espaço onde alguns sujeitos (no caso mulheres) não podem acessar por causa de normas que as exclui, mas que só pode ser acessado pelos sujeitos que se encaixam nas normas inscritas nele. Esse discurso de que homens precisam tornar espaços masculinos em espaços feministas mostra como existe a naturalização da heterossexualidade no discurso feminista porque pressupõe no “homem” uma característica que não é comum a todos os homens: a heterossexualidade. É até engraçado me imaginar numa cena tipicamente masculina propaganda ideias feministas: um churrasco. O ranço masculino heterossexual nesse espaço, aliado ao especismo forte e os papos típicos do churrasco deixa claro como aquele é um espaço heterossexual. Some a isso o fato de eu ser bicha, de estar divulgando ideias que, no caso, são ideias de bicha, porque homem que é homem é comedor. É esse tipo de estranhamento que existe. Por isso digo que existe uma heterossexualidade implícita no discurso feminista: ele não leva em conta as relações que existem entre os homens de diferentes sexualidades, e as assimetrias que surgem dessas situações. Por mais que o feminismo, na minha experiência, não seja homofóbico e seja até positivo para homens gays (que eu vejo também que são muito comuns em grupos feministas), esse tipo de discurso existe. A subjetividade heterossexual permeia todxs.
Só me vem essas ideias à cabeça agora. Queria esboçar também como a figura do amigo gay também está no feminismo e parece ser aceitável, mas tô sem cabeça e tudo parece meio esparso aqui dentro. Escrevi o texto porque agora, mais do que nunca, parece que o feminismo surge com uma cara heterossexual. Objeções a essas críticas que eu faço sempre apontam pro fato de que eu sou homem, mas quase nunca é levado em conta que várias das pessoas que objetam a esses argumentos são mulheres heterossexuais. Outro problema forte de políticas identitárias que essencializam a socialização e não percebem que sua experiência de vida aliada à sua auto-identificação também faz com que suas leituras da sociedade sejam parciais. E parece inaceitável apontar como há privilégio heterossexual no discurso de mulheres. Como já disse, não quero que o feminismo seja aberto a homens gays, mas gostaria que ele não propagasse ideias homofóbicas que naturalizam a heterossexualidade como regime político nem a noção de que tenho privilégios que, na verdade, não tenho. Tô aberto a comentários que me façam rever o que eu falei. Há braços.